quarta-feira, 17 de junho de 2009

Corredor De Fogo

O inverno era sempre bem frio e rigoroso onde eu morava, quando isso aconteceu. As noites eram escuras feito piche e o vento era forte e incansável. Nós nos mudamos bastante. O meu pai trabalhava em uma multinacional que vivia transferindo ele de cidade para cidade.

Para começar, a casa onde morávamos, por um breve período, era bem grande. nós éramos apenas 4, meu pai, minha mãe, meu irmão mais novo e eu. Eu tinha 16 e estava louca para completar 17. O meu irmão estava com 14 anos. Ninguém realmente sabia da história da nossa casa, então os meus pais não tinham motivo para não se mudar para lá. Algo que eu quero falar sobre a nossa casa era um corredor que tinha lá, bem comprido e estrito, com várias portas, levando aos banheiros e quartos. De noite, aquele corredor era o lugar mais intimidador daquela casa. De noite eu sempre corria para o meu, que ficava no fim do corredor.

Naquela noite, que eu vou sempre me lembrar, os meus pais foram jantar fora e o meu irmão foi dormir cedo, já que estava doente e com febre. Eu estava na cozinha preparando a minha sobremesa favorita, sorvete de creme completo com calda, farofa de sorvete e chantili. Depois eu coloquei todos os pratos na pia e fui ver TV, comendo o meu sorvete. Depois que o sorvete acabou eu desliguei a TV, fui escovar os meus dentes. Depois de passar pela rotina de "me aprontar para dormir" eu comecei a sentir um cheiro ruim. Era um cheiro bem estranho, como se tivesse algo queimando. Eu imediatamente corri de volta para a cozinha para ver se o forno estava ligado, mas estava tudo desligado. Nada fora do normal. Estranho, eu pensei. Eu simplesmente ignorei o cheiro e fui para a cama, com a barriga cheia de sorvete. Eu acordei duas horas depois, lá pela meia noite. Os meus pais ainda não tinham voltado, o que era normal. Eu tinha acordado com o barulho de uma porta batendo. O meu irmão idiota, eu pensei. Eu pulei da cama com uma fúria descontrolada, para ir gritar com ele para parar de fazer barulho no meio da noite. Eu andava rápido como muitas adolescentes enfurecidas fazem quando não estão de bom humor. Eu abri a porta do quarto dele pronta para soltar os cachorros e berrar a plenos pulmões, mas ele estava dormindo pesado, babando no travesseiro inteiro.

O medo começou a tomar conta de mim nesse instante. Eu fui para a outra ponta do corredor, e abri a porta que leva ao resto da casa. A porta tinha a tranca no meio da maçaneta, um botãozinho que você vira para trancar e destrancar a porta. Eu abri a porta e passei para a sala. Eu senti de novo o cheiro de alguma coisa queimando. Foi quando eu senti aquele arrepio na espinha, e o pelo dos meus braços arrepiaram, o ar em volta de mim estava gelado. Eu me perguntei se alguém tinha deixado uma janela aberta. Não, a minha mãe nunca abriria uma janela, ainda mais no meio do inverno. A minha cabeça virou de repente para o outro lado da sala quando eu vi alguém entrando na cozinha. Eu senti um frio no estomago e uma onda de energia se espalhou pelo meu corpo. O meu primeiro instinto foi sair da casa, e rápido. Eu lembrei que o meu irmão estava dormindo. Ah não, eu pensei. Eu corri de volta para o corredor e fui direto para o quarto do meu irmão. Eu agarrei ele e dei um chacoalhão e falei num tom de voz mais alto que eu conseguia sem fazer muito barulho, "a gente tem que sair daqui, tem alguém na casa!" Ele arregalou os olhos e saiu correndo pela porta do quarto dele, e eu fui logo em seguida. A gente estava chegando perto da porta do corredor. O meu irmão deu um encontrão dela e ela escancarou, e depois ele seguiu pela porta da frente. Eu estava indo bem atrás dele, mas a porta do corredor bateu bem na minha frente. Eu girei a maçaneta para abri-la, mas ela estava trancada! Os meus dedos se enroscavam furiosamente para destrancá-la, então eu senti o cheiro de coisa queimada de novo. Só que dessa vez estava muito mais forte. Eu virei e vi uma pessoa parada na outra ponta do corredor. Pânico. Ele estava se aproximando de mim, andando bem devagar. Só que havia algo de estranho com ele, o corpo inteiro dele estava coberto por uma crosta negra. Eu gritei e me concentrei em destrancar a porta. Ele ia chegando cada vez mais perto, e o cheiro estava ficando cada vez mais forte. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto enquanto eu gritava para a porta, rezando para ela destrancar. Eu gritava o nome do meu irmão. A figura sinistra estava mais perto agora, a quase três passos de mim. Tudo o que eu podia fazer era gritar. Eu comecei a bater na porta em pânico. Eu batia e gritava. O homem parou. Eu achei que estava destinada a morrer na minha própria casa. Ele esticou o braço e agarrou o meu ombro. Eu gritei "NÃO!!!", eu gritei como se a minha vida dependesse daquilo, e até onde eu sabia, dependia! Então a porta abriu violentamente, quase me pegando. Era o meu irmão. Ele agarrou o meu braço e me puxou e então saímos correndo sem nunca olhar para trás. As minhas costas estavam doendo, onde o homem tinha me agarrado, era a pior dor que eu já tinha sentido na minha vida toda. Eu não parava de chorar e berrava com o meu irmão perguntando porque ele não tinha ido antes. Ele falou que assim que ele viu que a porta bateu atrás dele ele voltou para abri-la e não estava conseguindo. Ele falou que me ouvia gritar e bater na porta, mas não conseguia abrir ela. Quando ele me ouviu gritar "NÃO!!!" ele se jogou na porta com tudo e só assim conseguiu abrir ela. Eu não conseguia parar de chorar. Eu chorei enquanto ficava na rua esperando os nossos pais. Eu chorei quando eles chegaram. Eu chorei quando a gente foi para um hotel. Eu chorei o resto da noite. Eu estava em choque. Aquela foi a pior experiência que eu tive durante a minha vida toda.

No dia seguinte eu não queria voltar para a casa. Eu não queria nunca mais entrar naquela casa. Nós nos mudamos depois de dois dias do que aconteceu lá e eu não entrei lá nesse tempo.

Depois de algum tempo eu descobri que um homem muito rico viveu na nossa casa, sozinho. Numa noite de inverno ele acendeu a lareira e acabou dormindo. Naquela noite a mangueira de gás do fogão arrebentou, o que causou um incêndio na casa, matando o homem de um jeito horrível e doloroso. Depois a família dele reformou a casa e a vendeu.

Até hoje eu imagino se ele ainda não continua por lá rondando a casa durante o inverno.

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