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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Corredor De Fogo

O inverno era sempre bem frio e rigoroso onde eu morava, quando isso aconteceu. As noites eram escuras feito piche e o vento era forte e incansável. Nós nos mudamos bastante. O meu pai trabalhava em uma multinacional que vivia transferindo ele de cidade para cidade.

Para começar, a casa onde morávamos, por um breve período, era bem grande. nós éramos apenas 4, meu pai, minha mãe, meu irmão mais novo e eu. Eu tinha 16 e estava louca para completar 17. O meu irmão estava com 14 anos. Ninguém realmente sabia da história da nossa casa, então os meus pais não tinham motivo para não se mudar para lá. Algo que eu quero falar sobre a nossa casa era um corredor que tinha lá, bem comprido e estrito, com várias portas, levando aos banheiros e quartos. De noite, aquele corredor era o lugar mais intimidador daquela casa. De noite eu sempre corria para o meu, que ficava no fim do corredor.

Naquela noite, que eu vou sempre me lembrar, os meus pais foram jantar fora e o meu irmão foi dormir cedo, já que estava doente e com febre. Eu estava na cozinha preparando a minha sobremesa favorita, sorvete de creme completo com calda, farofa de sorvete e chantili. Depois eu coloquei todos os pratos na pia e fui ver TV, comendo o meu sorvete. Depois que o sorvete acabou eu desliguei a TV, fui escovar os meus dentes. Depois de passar pela rotina de "me aprontar para dormir" eu comecei a sentir um cheiro ruim. Era um cheiro bem estranho, como se tivesse algo queimando. Eu imediatamente corri de volta para a cozinha para ver se o forno estava ligado, mas estava tudo desligado. Nada fora do normal. Estranho, eu pensei. Eu simplesmente ignorei o cheiro e fui para a cama, com a barriga cheia de sorvete. Eu acordei duas horas depois, lá pela meia noite. Os meus pais ainda não tinham voltado, o que era normal. Eu tinha acordado com o barulho de uma porta batendo. O meu irmão idiota, eu pensei. Eu pulei da cama com uma fúria descontrolada, para ir gritar com ele para parar de fazer barulho no meio da noite. Eu andava rápido como muitas adolescentes enfurecidas fazem quando não estão de bom humor. Eu abri a porta do quarto dele pronta para soltar os cachorros e berrar a plenos pulmões, mas ele estava dormindo pesado, babando no travesseiro inteiro.

O medo começou a tomar conta de mim nesse instante. Eu fui para a outra ponta do corredor, e abri a porta que leva ao resto da casa. A porta tinha a tranca no meio da maçaneta, um botãozinho que você vira para trancar e destrancar a porta. Eu abri a porta e passei para a sala. Eu senti de novo o cheiro de alguma coisa queimando. Foi quando eu senti aquele arrepio na espinha, e o pelo dos meus braços arrepiaram, o ar em volta de mim estava gelado. Eu me perguntei se alguém tinha deixado uma janela aberta. Não, a minha mãe nunca abriria uma janela, ainda mais no meio do inverno. A minha cabeça virou de repente para o outro lado da sala quando eu vi alguém entrando na cozinha. Eu senti um frio no estomago e uma onda de energia se espalhou pelo meu corpo. O meu primeiro instinto foi sair da casa, e rápido. Eu lembrei que o meu irmão estava dormindo. Ah não, eu pensei. Eu corri de volta para o corredor e fui direto para o quarto do meu irmão. Eu agarrei ele e dei um chacoalhão e falei num tom de voz mais alto que eu conseguia sem fazer muito barulho, "a gente tem que sair daqui, tem alguém na casa!" Ele arregalou os olhos e saiu correndo pela porta do quarto dele, e eu fui logo em seguida. A gente estava chegando perto da porta do corredor. O meu irmão deu um encontrão dela e ela escancarou, e depois ele seguiu pela porta da frente. Eu estava indo bem atrás dele, mas a porta do corredor bateu bem na minha frente. Eu girei a maçaneta para abri-la, mas ela estava trancada! Os meus dedos se enroscavam furiosamente para destrancá-la, então eu senti o cheiro de coisa queimada de novo. Só que dessa vez estava muito mais forte. Eu virei e vi uma pessoa parada na outra ponta do corredor. Pânico. Ele estava se aproximando de mim, andando bem devagar. Só que havia algo de estranho com ele, o corpo inteiro dele estava coberto por uma crosta negra. Eu gritei e me concentrei em destrancar a porta. Ele ia chegando cada vez mais perto, e o cheiro estava ficando cada vez mais forte. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto enquanto eu gritava para a porta, rezando para ela destrancar. Eu gritava o nome do meu irmão. A figura sinistra estava mais perto agora, a quase três passos de mim. Tudo o que eu podia fazer era gritar. Eu comecei a bater na porta em pânico. Eu batia e gritava. O homem parou. Eu achei que estava destinada a morrer na minha própria casa. Ele esticou o braço e agarrou o meu ombro. Eu gritei "NÃO!!!", eu gritei como se a minha vida dependesse daquilo, e até onde eu sabia, dependia! Então a porta abriu violentamente, quase me pegando. Era o meu irmão. Ele agarrou o meu braço e me puxou e então saímos correndo sem nunca olhar para trás. As minhas costas estavam doendo, onde o homem tinha me agarrado, era a pior dor que eu já tinha sentido na minha vida toda. Eu não parava de chorar e berrava com o meu irmão perguntando porque ele não tinha ido antes. Ele falou que assim que ele viu que a porta bateu atrás dele ele voltou para abri-la e não estava conseguindo. Ele falou que me ouvia gritar e bater na porta, mas não conseguia abrir ela. Quando ele me ouviu gritar "NÃO!!!" ele se jogou na porta com tudo e só assim conseguiu abrir ela. Eu não conseguia parar de chorar. Eu chorei enquanto ficava na rua esperando os nossos pais. Eu chorei quando eles chegaram. Eu chorei quando a gente foi para um hotel. Eu chorei o resto da noite. Eu estava em choque. Aquela foi a pior experiência que eu tive durante a minha vida toda.

No dia seguinte eu não queria voltar para a casa. Eu não queria nunca mais entrar naquela casa. Nós nos mudamos depois de dois dias do que aconteceu lá e eu não entrei lá nesse tempo.

Depois de algum tempo eu descobri que um homem muito rico viveu na nossa casa, sozinho. Numa noite de inverno ele acendeu a lareira e acabou dormindo. Naquela noite a mangueira de gás do fogão arrebentou, o que causou um incêndio na casa, matando o homem de um jeito horrível e doloroso. Depois a família dele reformou a casa e a vendeu.

Até hoje eu imagino se ele ainda não continua por lá rondando a casa durante o inverno.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

16º Andar

Em janeiro de 2003 uma turma de amigos parte à capital Porto Alegre para pousar uma semana em um prédio de uma amiga, com o intuito de freqüentar o Fórum Social Mundial. O centro da história não se baseia em nosso intuito, mas sim no prédio em que ficamos. Como se localiza bem na zona central da cidade, têm uma história muito longa, sendo muito antigo e muito grande. Sua estrutura interna, as paredes, eram tudo de madeira, dando um ar antigo porém clássico; parecia que muita coisa já havia acontecido ali. O ar também não era comum, dando a impressão que ao entrar no prédio, nos sentíamos em outro lugar. Mas o que mais marcou mesmo foram os 2 elevadores de madeira e seu silêncio quebrado por misteriosos estalos, que a princípio, pensávamos ser causados pela sua mecânica bem antiga.

Nenhum dos companheiros da turma tinha claustrofobia, mas, quase que inevitavelmente, ao entrarmos no elevador, sentíamos uma horrível sensação de sufocamento e mal-estar. No meio daquela semana, em uma noite faltou bebida no quarto e eu e mais dois amigos ficamos encarregados de comprar cerveja às 3 horas da madrugada... no momento em que voltamos da nossa busca frustrada, entramos no elevador da direita, pois já estava esperando no térreo (curiosidade: descemos com o elevador da esquerda). Entramos e todos são testemunha, pressionei o botão do 7º andar. Me manifestei por demorar demais até chegarmos em nosso andar, quando começamos a contar os pilares, e notamos mais de 10 andares passando por nós. Misteriosamente, o elevador parou no 16º andar, sem abrir as espessas portas de madeira oca. Um terrível silêncio tomou conta do ambiente, enquanto olhávamos um para o outro, abismados e ao mesmo tempo buscando alguma explicação para tudo aquilo. De repente, ouvimos um motor acionando , com o ruído bem próximo da gente e deduzimos que estávamos perto do último andar do prédio. Conseguimos também ouvir que o elevador da esquerda parou no mesmo andar que o nosso; abrindo suas portas, e segundos depois, abrem-se as portas do nosso elevador. Todos apavorados saem imediatamente do elevador, e observam que não tem nenhuma pessoa conduzindo o outro elevador. descemos rapidamente pelas escadas até o 7º andar.

Dois dias depois, ficamos no prédio novamente durante a noite e em todo o tempo em que não conseguíamos dormir, ouvimos claramente que os elevadores não pararam de funcionar, e isso tudo já era de conhecimento de toda a turma. Às vezes alguns ruídos mais altos me despertavam novamente.

Na manhã seguinte resolvemos comentar os fatos para o dono do bar onde tomávamos nosso café da manhã. Ele nos olhou com seriedade e ao mesmo tempo com um ar de quem já tinha ouvido muitas vezes a mesma história. Nos contou que no século passado o prédio era um hotel, e nele trabalhava um homem que dedicara a vida ao bem-estar e limpeza do local. Era responsável por toda a manutenção do prédio, bem como dos elevadores. Um fato horroroso acabou com a história do hotel. O homem, cujo ninguém se recordava o nome, no dia da manutenção dos elevadores estava ajustando a altura que o aparelho pára em relação aos andares. Seu alinhamento estava muito acima do normal. Não se sabe como, mas dizem que ele acabou caindo do 16º andar quando entrou no espaço destinado à ocupação do elevador, mas este não estava no mesmo andar.

Enfim, dentro da realidade... a gente até hoje se pergunta: isso foi uma simples coincidência? Achamos que sim mas, a partir dessa temporada, todos nós passamos a usar as escadas...

A Casa Na Granja Viana

Na metade da década de 80 o meu pai comprou uma casa em Cotia, no bairro da Granja Viana. Nós só usávamos a casa nos finais de semana. Era uma casa muito boa com piscina e churrasqueira e quem conhece a Granja Viana sabe que a vizinhança por lá é bem quieta e as ruas são desertas. Era um refúgio da vida urbana de São Paulo. Nós sempre íamos para lá. Mas o tempo passou e a minha família começou a passar por uma pequena crise financeira, e para não ter que vender a casa nós a alugamos. Depois de alguns anos o meu pai deu uma volta por cima na crise que nós estávamos e então paramos de alugar a casa. Mas como fazia muito tempo que não íamos para lá, perdemos o costume e raramente íamos, e depois de algum tempo simplesmente paramos de ir. A casa ficou quase que abandonada.

Depois de quase cinco anos com a casa no esquecimento, recebemos uma ligação de um policial da região pedindo para o meu pai comparecer na delegacia local porque queriam falar com ele. O meu pai foi achando que ia ser alguma coisinha sobre a casa aparecer abandonada ou coisa parecida, mas quando ele voltou estava branco feito a parede.

Ele chegou na delegacia e mandaram ele falar com um cara que já foi despejando tudo nele. O cara falou que ele era detetive que tinha conseguido o nosso telefone com um dos vizinhos e que tinha acontecido um crime na nossa casa, coisa pesada mesmo. Quatro caras raptaram uma garota de 20 anos, levaram para a nossa casa pensando que ela estava abandonada e fizeram de tudo com a garota, e no final mataram ela e enterram no quintal, e pegaram todos os documentos, dinheiro e jóias dela. E o detetive falou que esse não era o primeiro crime que acontecia lá, falou que esses quatro caras já tinham mantido dois caras reféns de seqüestro lá dentro e matado pelo menos mais três integrantes de uma gangue rival e enterraram lá. Eles procuraram e acharam a ossada dos três caras no nosso quintal também. Falou que ele não precisava se preocupar que tinham revirado o quintal todo e não acharam mais "ninguém", e que os quatro caras que estavam usando a nossa casa para isso tudo já tinham sido presos.

O meu pai estava arrasado, tinham invadido o nosso paraíso e transformado ele num inferno. Ele falou que o quintal da casa estava todo revirado, tava todo esburacado, a piscina estava completamente imunda, um dos quarto da casa estava completamente ensangüentado e o sangue já estava todo seco, falou que a casa estava fedendo a urina, tava toda pichada por dentro. Ele falou que a casa estava irreconhecível. A gente resolveu que ia reformar a casa e depois ia vender ela.

Depois de muita dor de cabeça e muito tempo, a casa ficou como era antes. Um quintal bonito, tava toda arrumada e limpa por dentro, a piscina estava em ordem de novo, tinha voltado a ser uma casa descente de novo. Ai bateu a pena e nós decidimos que não íamos mais vender a casa, simplesmente iríamos esquecer o que tinha acontecido lá dentro no passado e transformar aquilo lá num lugar feliz de novo.

Só que a nossa vida tinha mudado muito desde a época que sempre íamos para lá nos finais de semana e realmente não dava para ir sempre para lá. Como nós estávamos com medo que usassem a nossa querida casa para algum fim deturpado de novo estávamos pensando em alugar a casa mais uma vez. Mas agora eu já estava mais velho, já tinha o meu carro e estava para sair de casa e começar a minha vida sozinho. Então tive a brilhante idéia de em vez de alugarmos a casa, eu ir morar nela!!! Os outros podiam ir lá sempre que quisessem e a casa não ficaria abandonada. No começo não foi fácil tentar convencer eles, a minha mãe estava muito apreensiva em me deixar morar lá sozinho. Foi depois de muita conversa e muita insistência que eles me deixaram morar lá.

E lá fui eu feliz da vida para a "minha" casa nova, morar sozinho e ser independente. Claro que eu pensava em levar o pessoal da faculdade para lá, fazer festa o tempo todo, achei que ia ser a maior farra. Mas foi exatamente o contrário. Com o tempo eu acabei acostumando com a viagem diária para a faculdade e de lá para casa, mas nem todos os meus amigos estavam dispostos a ir até lá. A casa era bem grande. Tinha cinco quartos, todos suítes, três salas, uma cozinha grande, área de serviço. Eu acabei me sentindo muito sozinho lá naquela casa enorme e ficava deprimido constantemente. Depois de um tempo assim os meus pais deixaram eu chamar alguns amigos da faculdade para morar comigo. Claro que logo eu consegui convencer dois amigos e uma amiga a ir morar lá comigo. A vida depois disso começou a virar uma festa lá dentro. A gente se dava bem, respeitávamos uns aos outros e tratávamos a garota que estava morando conosco feito nossa irmã. Com o tempo vieram as festas, já que agora tinha carro suficiente para levar e trazer quem quisesse ir.

Numa dessas festas um pessoal se juntou na sala de TV e começou a contar histórias de terror. Só que era uma história mais fraquinha que a outra e não estava assustando ninguém, até que eu resolvi abrir a minha boca. Eu contei a história dos caras que tinham pegado a menina e depois de fazer ela passar pelo inferno mataram ela num dos quartos lá em cima. O pessoal ficou quieto porque realmente era algo pesado e realista, diferente do que estavam contando. Estava aquele silêncio todo quando alguém me perguntou se aquilo realmente era verdade, porque se fosse mentira era uma piada de muito mau gosto. Eu jurei que era verdade até que alguém gritou lá do fundo "vamos fazer a brincadeira do copo lá em cima nesse quarto e chamar o espírito da mulher então!" Quando ele falou isso a minha espinha gelou e todos os pelos do meu corpo ficaram em pé, só que o pessoal começou a gritar "vamo lá, vamo lá" e então lá fomos nós. Eu peguei um copo na cozinha e subi com o pessoal que estava na sala da TV, enquanto o resto do pessoal ficou lá em baixo na festa.

Só uma coisa que eu não mencionei antes. Este quarto ficava sempre vazio, só tinha uma cama, um criado-mudo e uma poltrona lá dentro, mais nada. No dia que os meus amigos vieram morar comigo, na hora de escolher os quartos todos entraram nesse quarto, mas ninguém gostou dele, e eu também nunca gostei dele, mas eu sabia o porquê, pelo menos eu achava que sabia, que era porque tinha sido lá que a garota tinha sido morta, só que eles não sabiam disso até aquela noite. Nenhum de nós quatro gostava de entrar lá dentro nem de passar pela frente dele. Dava uma angústia.

Quando nós entramos no quarto, empurramos a cama para perto da parede, e puxamos o criado-mudo para o meio do quarto, colocando o copo em cima dele e colocando um monte de letras escritas em pedaço de papel em volta e dois pedaços maiores escritos SIM e NÃO. Nós acendemos quatro velas e demos para quatro pessoas (nós estávamos em nove) segurarem em volta da gente para podermos ver as letras e apagamos as luzes. O cara que estava "comandando o show" falou que era bom só três pessoas colocarem o dedo em cima do copo para não dar muita "interferência" (eu não entendi o que ele quis dizer, eu não brinco muito com isso) então eu, ele e uma menina colocamos o dedo em cima do copo e fechamos os nossos olhos, e os outros dois que sobraram ficaram de ler o que o espírito respondia.

Nós três fechamos os olhos e começamos a tentar nos comunicar com o espírito. Depois de alguns minutos com o copo parado eu achei que não ia acontecer nada, mas de repente o copo começou a se mexer. Primeiro foi só um pouquinho para o lado. Eu achei que tinha sido um dos outros dois que estavam com o dedo no copo que tinham mexido ele, então eu falei "quem mexeu o copo" quando o outro cara que estava com o dedo no copo fez um shhhhhh e ficou com a cara séria. Ele realmente estava levando aquilo a sério. Então eu fechei o olho de novo. O cara perguntou se tinha algum espírito presente. O copo se mexeu devagar. Um dos dois que estavam lendo o que o espírito dizia falou "o copo foi pro sim". O cara que tava fazendo as perguntas perguntou qual era o nome do espírito. Depois de alguns segundos o copo começou a se mexer. Ia de um lado para o outro, para frente e para trás. O cara que tava lendo o que estava sendo soletrado falou "Mariana. O nome do espírito é Mariana". Eu abri o olho e vi que o pessoal estava com uma cara meio assustada. Eu falei que não precisava se preocupar que era algum dos dois que estavam empurrando o copo quando um dos que estavam segurando a vela falou "cara, eu to olhando pra vocês três o tempo todo e não vi ninguém de olho aberto, como é que algum de vocês ia conseguir soletrar algo direito com o olho fechado?" O cara que estava fazendo as perguntas fez um shhhhh de novo e nós ficamos quietos. Eu fechei o olho de novo, então ele perguntou se ela era o espírito da mulher que tinha morrido lá. O copo ficou parado. Um tempo passou, quase um minuto, e a gente estava para perguntar de novo quando o copo se movimentou violentamente para o lado. "Parou no sim de novo". A garota que estava com o dedo no copo perguntou o que tinha acontecido lá. Imediatamente o copo começou a se mexer. O cara que tava lendo falou "não ta indo para lugar nenhum, só ta fazendo um 8". O copo ficou fazendo um oito por um bom tempo. O cara que estava com o dedo no copo falou que a pergunta era muito complicada para responder. Então o copo parou. Ele perguntou a quanto tempo ela estava lá. Os dois que estavam vendo o que estava sendo escrito começaram a soletrar "V-A-O-E-M-B-O-R-A. Vão embora." "por que?" o cara perguntou "V-A-O-E-M-B-O-R-A. De novo, vão embora. Acho melhor a gente parar com isso" "Por que?" o cara perguntou de novo. O copo começou a se mexer muito rápido fazendo o sinal do 8. Eu comecei a ficar assustado, porque era praticamente impossível algum de nós conseguir fazer o copo ir tão rápido como estava indo sem fazer ele virar. "Por que?" o cara insistiu de novo. De repente uma brisa bateu no quarto, mesmo as janelas estando fechadas, ficou frio lá dentro e as velas apagaram. O copo tinha parado de se mexer e eu ouvi um estalo. Um dos que estavam segurando as velas pulou para o interruptor para acender a luz.

Quando o quarto ficou claro eu vi algo que me fez me arrepender muito de ter levado adiante aquilo tudo, o copo estava todo trincado e as letras tinham voado todas de cima do criado-mudo, menos 5: e m o r t. Eu bati o olho e vi que aquelas cinco letras formavam algo familiar. A menina que estava com o dedo no copo simplesmente colocou o dedo em cima do "e" e colocou depois do "t". Morte. E assim que ela tirou o dedo de cima do pedaço de papel ficou uma manchinha vermelha nele. O dedo dela tava sangrando, tava com um corte pequeno mas profundo. Eu acho que ela se cortou quando o copo trincou, mesmo eu e o outro cara não tenhamos nos cortados. E realmente não dava para se cortar com o copo trincado, ele não tinha soltado lasca nenhum, mas tinha sido nele, porque ele também estava com um pouco do sangue ela.

O cara que tinha acendido a luz começou a falar que aquilo já era brincadeira de mau gosto. Que já era desrespeitar a garota que tinha morrido lá. Só que aquilo realmente não era brincadeira nenhuma. Quando ele abriu a porta irritado para sair tinha o resto do pessoal da festa estava do lado de fora com cara de assustado. Eles falaram que começaram a ouvir alguma garota a berrar histérica, mas tava berrando muito, pedindo ajuda. Todo mundo subiu correndo, pois parecia que estavam matando alguém lá em cima. QUando subiram viram que a berraria estava vindo de dentro do quarto que nós estávamos. Eles tentaram abrir mas a porta estava trancada. Só que nós não tínhamos trancado a porta do quarto. Eles falaram que bateram na porta e até tentaram arrombar ela, mas a porta não cedeu nem um pouco, e a cada segundo que passava a gritaria lá dentro ficava mais desesperada e histérica, só que a gente não ouviu grito nenhum lá dentro! Mas de repente tudo parou e a porta abriu. A gente jurou que a porta estava aberta mas ninguém acreditou. Eles acharam que era alguma brincadeira de mau gosto e desceram furiosos, pois aquilo não era brincadeira que se fazia.

Depois de um tempo todo mundo foi embora, nos tivemos que levar a maioria para casa, e quando voltamos a menina e o outro cara que moravam comigo perguntou o que tinha acontecido. Eu e o outro cara contamos a história, mas eles não acreditaram muito. Quando a gente perguntou o que eles tinham ouvido eles falaram que só ouviam gritos de uma mulher falando "para, pelo amor de Deus, para, alguém me ajuda" e coisa assim. Eu contei a história da garota que tinha sido morta lá dentro da casa e eles ficaram bravos por eu não ter contado a história antes. Mas deixamos tudo de lado e fomos dormir.

No dia seguinte levantamos para arrumar a casa (que estava uma bagunça). Quando tínhamos arrumado quase tudo eu falei "ainda falta o quarto do meio lá em cima. Só que eu não vou lá sozinho". O cara que estava lá comigo na noite anterior foi junto, e lá estava o quarto como nós o tínhamos deixado. Com os cinco pedaços de papel em cima do criado-mudo, o copo trincado no meio dele, as velas do lado do copo e o resto dos papéis espalhados pelo quarto. A gente pegou tudo correndo, colocou num saco de lixo e jogou fora.

Depois daquele dia coisas estranhas começaram a acontecer pela casa. Sussurros pelos cantos, portas batendo com violência mesmo sem ter corrente de ar dentro da casa, luzes que acendiam e apagavam, e as vezes uns gritos que vinham do andar de cima que rasgavam a alma, era algo que dava um medo desgraçado. Um dia estávamos nós quatro chegando da faculdade, estávamos no mesmo carro, quando nós saímos do carro eu olhei para a casa e vi uma sombra na janela. Eu fiquei apavorado, mas quando os outros olharam, já não tinha mais nada na janela. Eu fiz todo mundo revirar a casa toda, mas não achamos ninguém lá dentro.

Depois de algum tempo os nossos nervos já estavam à flor da pele, qualquer barulho e a gente já pulava assustado. Não demorou muito pra que os outros começassem a ir embora. Primeiro foi um dos caras. Ele deixou pago o aluguel de dois meses mas falou que não ficava mais lá, que não agüentava mais acordar no meio da noite com a impressão de que tinha alguém no quarto dele. Várias vezes a gente achou ele dormindo no sofá da sala de manhã. Depois de um mês foi a garota que foi embora. O quarto dela ficava do lado do quarto que a menina tinha sido morta. Ela falou que de noite escutava batidas nas paredes, vindas do outro quarto. E se ficasse tudo quieto ela podia ouvir um choro bem baixo perto da parede. Nos dias antes dela ir embora ela já não dormia direito estava com olheiras grandes e andava de muito mau humor.

Na noite que ela foi embora aconteceu o seguinte: ela falou que estava finalmente quase dormindo, o que estava sendo muito difícil para ela nos últimos dias, e que quando ela estava pra pegar no sono mesmo ela ouviu uma voz feminina berrando com toda força no ouvido dela "SAI DAQUI! VAI EMBORA! ME DEIXA EM PAZ!". Ela levantou da cama com um pulo, acendeu a luz mas não tinha mais ninguém no quarto dela, só ela. Ela saiu do quarto dela chorando falando que não agüentava mais aquilo e que ia embora. A gente conseguiu acalmar ela, mas ela simplesmente catou algumas coisas dela, foi pro carro e foi embora. Ela voltou no final de semana pra pegar o resto das coisas dela e nunca mais pisou naquela casa de novo.

Depois de uma semana foi o outro cara que foi embora. Eu até hoje não sei o que aconteceu com ele direito. Ele sempre mencionava que o quarto dele costumava ficar frio de repente, do nada. Mas não o quarto todo, só alguns lugares, o que me fez pensar que tinha alguma corrente de ar lá dentro. Mas um dia ele estava tomando banho e depois de uns cinco minutos lá dentro ele saiu berrando do banheiro, peladão mesmo. Eu fui ver o que era e ele falou que não era nada. Ele me fez ir até o banheiro com ele para desligar a água, depois botou uma roupa e tava falando da gente ir embora da casa. Eu consegui ele a ficar mais um tempo pra gente resolver o que ia fazer, que tava muito tarde. Ele falou que ta bom, que ele ia ficar lá mas que então ia dormir no meu quarto comigo. EU deixei, pois não estava a fim de passar a noite sozinho também. Ele colocou o colchão dele do lado da minha cama e então nós fomos dormir. Quando eu acordei o colchão dele estava todo rasgado e ele não estava lá. Eu fiquei preocupado e comecei a chamar por ele. Eu comecei a procurar ele pela casa e depois de um tempo achei ele dormindo dentro do meu guarda roupa com uma faca de cozinha na mão. Eu acordei ele e ele me falou que acordou com a faca na mão e que tinha alguém segurando a perna dele. Ele perguntou se era eu e só ouviu um grito desumano e a mão na perna dele começou a apertar até machucar ele. Então ele começou a esfaquear o colchão e correu para o armário e ficou lá dentro. Ele não sabe como eu não acordei com o grito, pois foi um grito bem estridente e alto. Ele pegou as coisas dele e se mandou.

Eu fiquei lá sozinho por mais um tempo, mas não agüentava aquela solidão e aquela casa já estava começando a me afetar. Era normal eu ir dormir no carro porque estava com medo de ficar dentro da casa. Depois de um tempo eu resolvi ir embora da casa, por que eu já estava ficando louco e paranóico. Eu estava vendo vultos no escuro em todos os cantos da casa, ouvia sussurros de noite, no meu quarto quando estava para dormir, ouvia os grito vindo do quarto do meio lá de cima. A coisa estava de um jeito que ou eu saia de lá ou eu ia para um hospício.

Eu acabei voltando a morar com os meus pais falando que a casa era muito longe para ir e vir todo dia e era por isso que eu estava sempre cansado e estressado. Ele tentou alugar casa, mas não conseguia ficar mais de seis meses com ela alugada. Agora ela está lá sem uso pois não conseguimos alugar ela e não usamos. Daqui a pouco vai estar uma verdadeira casa fantasma abandonada.

Mas eu sei que eu não chego perto daquela casa de novo.