sábado, 11 de julho de 2009

O Gato Preto (Parte I)

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

13 comentários:

  1. aaah se quiser mandar o orkut depois :)

    ResponderExcluir
  2. Putz, seu blog é sinistro cara! Ótimos contos!!

    ResponderExcluir
  3. Pois é, muito shoow esse blog ae, gostei muito veio :D

    ResponderExcluir
  4. Desculpe, mas a partir da linha do canivete não tive mais coragem de ler seu texto.
    Seria muito para mim, que até hoje sinto a falta de meu cão.
    Seria demais para meu coração que ama animais.

    ResponderExcluir
  5. IAOHSIHSIAASAShas' adoooooooorei o conto. *-* e q lastimavel , haha' parabenz adorei mesmo.
    E tipoo. que bom q vc gostou do meu jeito de escrita..ow melhor..um dos jeitos.. tbm tenho um tom humoristico :)

    ResponderExcluir
  6. Aah sei la, também gosto de escrever com um tom humoristico. Só que esse tom esta presente em outros textos. Os meus ultimos textos tem sido muito sentimentalistas Haha

    ResponderExcluir
  7. Bom, sentimentalismo é bom sim. É como uma limpeza de espirito poder escrever com sentimentalismo.
    E sobre a editora.. HAHA podia msm !
    Eu tenho historias aqui contadas por mim, a mais legal é "O diário que eu queria ter" ela é bem longa, e conta por capitulo primeiro como foi o dia imaginativo, e dps como foi o real dia . Ninguem viu é claro.. só algumas amigas xeretas que mexeram no meu pc.. mas so viram por cima. E tenho muito mais historias, só que nao gosto de mostrar para as pessoas pq elas escondem muito sobre mim OAISHAOIHSOIAS'

    ResponderExcluir
  8. oi (voltei depois de um séclo.)
    *--*
    Muito legal esse texto, sinceramente foi um dos melhores que eu já li.
    Parabêns.
    kissus

    ResponderExcluir
  9. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
    Eu nem precisoo dizer algoo preciso?
    Minha parte preferidaa de:
    "Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não deveria cometê-las?"
    tão lógico e real, Poe me descreve (a Sophia mais ainda) tão bem que chega a me despir com as palavras (oi, fiz filo-'sophia'! \õ/)
    e siim, eu li, leio e lerei incansavelmente quaisquer contos de Poe! Meu grande amor (oi, eu amo um cara que morreu há séculos e ainda me considero normal!)
    Parabééns (por ser fã de Poe, claro!)
    e Anaa e Sophiaa sentem saudades tb :/
    Você somee!
    Feijõõões! (argh, linguagem vegetariana ¬¬³)

    ResponderExcluir
  10. Edgar Allan Poe! *-*
    É um dos meus escritores favoritos, e este é o conto que mais gosto.

    ResponderExcluir
  11. "Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não deveria cometê-las?"

    ADOREEEEEEI ESSE TREXO.
    VOCÊ HEIN?
    COMO SEMPRE ARRAZANDO!

    estou de volta.
    Tive alguns problemas familiares.
    Fui parar na casa da minha vó...
    Sabe como é casa de vó neh?
    Aquela comidinha deliciosa..
    acabei esquecendo do Blog XD

    Tbm estava com saudades!
    Capitulo novo!
    Você vai começar a descobrir o pq que você não gosta do Steven.

    Beijos
    Miss GG

    ResponderExcluir